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Causou verdadeiro trauma social a divulgação de gravações telefônicas
onde o traficante Toninho Pavão determinava, ao
vivo, a execução de um casal de devedores. Pouco ou
quase nenhum destaque, porém, mereceu o
delegado-chefe de polícia ao afirmar que, devido à
ilicitude da comercialização de drogas, Toninho
Pavão não tinha alternativa, dentro da lógica do
tráfico, senão agir desta maneira (para manter sua
autoridade neste mercado clandestino). Esta é a
principal causa de mortes (sobretudo adolescentes)
nas páginas policiais dos jornais. Novidade mesmo,
só a gravação telefônica.
Paralelamente, não se registram ocorrências (assalto ou morte) de quem
deva cigarros, bebida, cola ou tinner. Nos semáforos
e praças, grupos de cheiradores e alcoolistas pedem
um trocado e vão-se embora com um “obrigado” ou
“deus lhe pague”. Filar cigarro então, tornou-se até
folclore.
A diferença básica entre as duas situações está na ilicitude. Ignorar
este detalhe tem nos custado (e continuará custando)
cada vez mais caro. Nossas cadeias estão saturadas,
superlotadas. Enquanto cerca de 80% das causas de
prisões estão relacionadas com drogas ilícitas e seu
consumo cresce; o tabagismo decresceu de 32% para
19% em pouco mais de uma década de campanhas
educativas.
Vivemos massacrados e assaltados pela segunda maior carga tributária do
mundo; mas traficante é isento de toda e qualquer
tributação (o que seria seu tributo fica reservado a
corromper autoridades). Estamos gastando mais com
Segurança do que com Educação. Isso é errado, um
absurdo. Violência não é causa; é conseqüência.
Por que não se legalizar, regulamentar e tributar a comercialização das
drogas ilícitas? Afinal, nosso fisco é um dos mais
eficientes e modernos do mundo. Droga, qualquer que
seja, é problema primário de Saúde, de Educação e de
Fisco; não de Polícia.
Que seria dos traficantes se tivessem de se tornar comerciantes; pagar
impostos; ter produtos registrados nos Ministérios
da Saúde, da Agricultura; clientes amparados pelo
PROCOM; obedecer às especificações de embalagens;
ter serviço de 0800, ficar sujeitos a controle de
qualidade e a regime de livre concorrência;
enfrentar campanhas educativas e restrições ao
usuário (tipo cigarro e álcool)? Com certeza haveria
menos gente e mais vagas nas cadeias; menos suborno,
corrupção e armas; menos violência; maior
arrecadação de impostos; mais empregos com carteira
assinada; mais verbas para Educação e Saúde; mais
investimentos e desenvolvimento social.
Carecemos de partidos e de políticos sérios, com disposição e coragem
para enfrentar o desgaste que a modernização de
nossa Sociedade exige. Parece até que “isso aqui tá
muito bom, isso aqui tá bom demais” para nossas
autoridades, adaptadas à Indústria da Violência. Há,
no ar, um “salve-se quem puder,” neste país de
macunaimas, tão promissor, mas em franca
deterioração. Lá fora, na Holanda, Canadá, Suécia e
outros países sérios, a mentalidade é outra. Pense
nisso na hora de votar. Seu voto pode ajudar. |
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