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    Do ovo de Colombo ao imã de Galvêas  
       
   

Após ser tido como louco, visionário, excêntrico e outras coisas mais, por acreditar que a Terra fosse redonda; e por imaginar chegar às Índias navegando para o ocidente, Colombo fez a maior descoberta da História, pelo menos em tamanho: descobriu o continente americano. Imediatamente o discurso mudou: “Era óbvio que existia a América! Quem duvidaria que a Terra fosse redonda?” Seus antigos críticos se sentiam até injustiçados e preteridos na expedição. O feito antológico, uma vez realizado, banalizara-se: “qualquer um faria”. Estes eram os comentários depreciativos durante um jantar, quando Colombo propôs a seus antagonistas colocar um ovo em pé; algo tão simples e banal, que ninguém imaginara. Só Colombo o fez, ao som do coro do “assim eu também faria”.

De forma análoga, o mesmo se deu com Kleber Galvêas. Tido como excêntrico e exótico (por combater a poluição atmosférica com sua arte), descobriu algo equivalente a Colombo: quem mais polui nosso ar é uma das maiores empresas do mundo. A mesma discriminação lhe adveio. Afinal quem era este pintor que, ao invés de mexer com tintas, se metia a questionar engenheiros, técnicos ambientalistas e autoridades alinhadas com a Empresa? Sentindo-se prestes a ser anulado, Galvêas enfiou a mão no bolso e, ao invés de ovos, tirou um imã bem vagabundo, desses de enfeitar geladeira; recolheu sobre uma folha de papel a poeira da mesa e passou o imã por baixo. Não era mágica, nem prestidigitação: eram partículas de ferro dançando ao compasso dos movimentos do imã.

Até então a história da poluição tinha como principal vilã a Construção Civil. Mas o Imã de Galvêas provou de que é a culpa. Algo tão simples, singelo, infantil e barato, bastou para neutralizar trinta anos de fracassos e dissimulações, em conivência de nossas autoridades. Milhões em propagandas, auxílios de campanhas eleitorais reduzidos a pó, sobre uma simples folha de papel, guiados pelo imã (a provar que, nesta história de poluição, a “rainha” está nua).

Como pintor, Kleber Galvêas introduziu um elemento novo, de grande expressão na História da Arte Contemporânea, ao trabalhar artisticamente a própria matéria poluente, logrando a máxima integração entre matéria prima pictórica e objetivo de comunicação artística; onde técnica e linguagem são uma só coisa, em total identidade e perfeita interação. Como obra de arte, em eloqüência e propriedade de linguagem de denúncia, protesto e repúdio, a série A VACA, A VALE E A PENA equivale à Guernica de Picasso. Como pesquisa e técnica, é vanguarda internacional. Como obra de arte é imortal; um patrimônio da humanidade que será disputado pelos museus do mundo. Algo que merece uma sala na Bienal de São Paulo, mas que, lamentavelmente, nada terá aqui, senão o tratamento dado a Colombo.

É pena que Kleber Galvêas more numa província cheia de vícios intelectuais; que tal como Van Gogh, viva entre pessoas ignorantes, formadas numa universidade pereba, atoladas na mediocridade e incapazes de perceberem a grandeza do entorno com que convivem. A arte de Galvêas é singelamente genial, como seu imã de geladeira, como o ovo de Colombo: algo que “qualquer um faria”, depois que ele fez. Um dia a História nos mostrará, lá de fora, sua grandeza como Artista; mas até lá, será mais um Levino Fanzeres, numa imensa Cachoeiro do Itapemirim.

 

 
       
   

Geraldo Fernandes Pignaton – Médico e Bacharel em Direito

 
 
 

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